O uso de esteroides anabolizantes androgênicos (EAA) tem crescido entre praticantes de musculação e atletas amadores em busca de aumento de massa muscular, força e definição corporal. No entanto, o uso não médico desses compostos, especialmente em doses suprafisiológicas, está associado a uma série de efeitos adversos, sendo o hipogonadismo secundário induzido por anabolizantes uma das complicações mais importantes e frequentemente negligenciadas.
O que são anabolizantes?
Anabolizantes são derivados sintéticos da testosterona, o principal hormônio sexual masculino. Seu uso terapêutico é indicado em casos como hipogonadismo, perda de massa muscular por doenças crônicas, osteoporose, e anemia severa.
Já o uso recreativo ou estético de anabolizantes geralmente envolve doses de 5 a 100 vezes maiores que as fisiológicas e combinações de várias drogas, chamadas de ciclos ou “blasts”.
Como funcionam os anabolizantes no corpo?
- Estimulam síntese proteica e retenção de nitrogênio, promovendo crescimento muscular.
- Aumentam a produção de glóbulos vermelhos.
- Têm efeitos colaterais pela ação androgênica em tecidos como pele, próstata, fígado, sistema nervoso e sistema cardiovascular.
Riscos do uso de anabolizantes
1. Efeitos endócrinos
- Hipogonadismo hipogonadotrófico: o uso exógeno de testosterona suprime o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, reduzindo ou parando a produção natural de testosterona.
- Atrofia testicular: pela redução da LH e FSH.
- Infertilidade: espermatogênese interrompida por inibição da FSH.
- Ginecomastia: conversão de testosterona em estrogênio.
- Dificuldade de recuperação hormonal após o ciclo (às vezes permanente, exigindo reposição vitalícia).
2. Efeitos cardiovasculares
- Dislipidemia (↑ LDL, ↓ HDL)
- Hipertensão arterial
- Aumento do risco de infarto e AVC, mesmo em jovens
- Miocardiopatia hipertrófica e arritmias
3. Fígado e rins
- Hepatotoxicidade, principalmente com esteroides orais (ex: stanozolol)
- Risco de adenomas hepáticos e hepatocarcinoma
- Lesão renal por aumento da creatinina, proteinúria e necrose tubular
4. Psicológicos e neurológicos
- Agressividade, irritabilidade, labilidade emocional (“roid rage”)
- Dependência psicológica
- Depressão severa na fase pós-ciclo
5. Dermatológicos
- Acne severa e oleosidade
- Queda de cabelo (alopecia androgenética)
- Estrias e pele fina
Hipogonadismo induzido por anabolizantes
O hipogonadismo secundário (ou hipogonadotrófico) ocorre pela inibição da produção de GnRH (no hipotálamo), LH e FSH (na hipófise), após o uso de testosterona exógena ou derivados.
Sintomas frequentes:
- Fadiga
- Queda da libido
- Disfunção erétil
- Depressão
- Diminuição da massa muscular e força
- Infertilidade (azoospermia)
Diagnóstico:
- Testosterona total e livre baixas
- LH e FSH suprimidos
- Espermograma pode mostrar azoospermia ou oligospermia
Recuperação e tratamento
Nem todos os usuários voltam a produzir testosterona normalmente após cessar o uso. A recuperação depende da duração, tipo e dose dos anabolizantes usados, bem como da genética do indivíduo.
Abordagens possíveis:
- Pós-ciclo terapêutico (PCT): uso de fármacos como tamoxifeno, clomifeno e hCG para estimular o eixo HPT.
- Reposição hormonal: em casos de hipogonadismo persistente (apenas com indicação médica).
- Indução de espermatogênese: com hCG e FSH, principalmente em homens inférteis que desejam ter filhos.
Conclusão
O uso de anabolizantes pode trazer ganhos estéticos a curto prazo, mas os riscos à saúde são sérios e muitas vezes irreversíveis. O hipogonadismo secundário é uma consequência comum e debilitante, que pode exigir tratamento prolongado e afetar fertilidade, sexualidade e bem-estar geral.
A prevenção, conscientização e orientação médica são fundamentais para evitar o uso indiscriminado dessas substâncias e mitigar danos nos casos já em andamento.

