Vício em masturbação: quando o hábito saudável se torna um problema

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A masturbação é uma prática sexual comum, natural e, em muitos casos, benéfica para a saúde física e mental. No entanto, quando se torna excessiva, compulsiva e interfere na vida diária, pode configurar um comportamento problemático ou vício, conhecido clinicamente como comportamento sexual compulsivo ou transtorno hipersexual.

O que é o vício em masturbação?

Trata-se de um padrão repetitivo e incontrolável de masturbação que:

  • É feito compulsivamente, mesmo sem desejo sexual genuíno
  • É usado como fuga emocional (estresse, ansiedade, tédio)
  • Prejudica a vida social, profissional, afetiva ou sexual
  • Gera sentimentos de culpa, vergonha ou perda de controle

Não é o número de vezes que define o vício, mas sim o impacto negativo que o comportamento tem sobre a vida da pessoa.

Sinais de alerta

  • Masturbar-se várias vezes ao dia, com sensação de obrigação
  • Incapacidade de parar, mesmo com prejuízos evidentes
  • Negligência de responsabilidades (trabalho, estudo, relacionamentos)
  • Isolamento social e perda de interesse por outras atividades
  • Uso como estratégia de regulação emocional (raiva, ansiedade, frustração)
  • Sensação de culpa, vergonha ou depressão após o ato
  • Redução do desejo por sexo real ou dificuldade de ereção com parceiras(os)

Causas possíveis

1. Psicológicas e emocionais

  • Ansiedade e depressão
  • Solidão e baixa autoestima
  • Trauma emocional ou abuso sexual
  • Recompensa dopaminérgica em ciclos de vício (estímulo > prazer > culpa > repetição)

2. Acesso facilitado a pornografia

  • A pornografia pode potencializar o ciclo de compulsão, especialmente quando associada a estímulos extremos e contínuos.

3. Neurobiologia da compulsão

  • Assim como outros vícios comportamentais (como jogo ou compras), a masturbação repetida pode ativar os circuitos de recompensa do cérebro (dopamina), levando à perda de controle e tolerância.

Diferença entre masturbação saudável e compulsiva

AspectoSaudávelCompulsiva
FrequênciaVariável, sem prejuízo funcionalRepetitiva, interfere na rotina
ControleVoluntária e prazerosaImpulsiva, difícil de controlar
Função emocionalPrazer, relaxamentoFuga de emoções negativas
Impacto na vida socialNenhum ou neutroIsolamento, prejuí­zo em relacionamentos
ResultadoSatisfaçãoCulpa, angústia ou arrependimento

Consequências possíveis

  • Problemas de autoestima e identidade
  • Redução da libido com parceiros reais (anorgasmia ou disfunção erétil psicológica)
  • Ansiedade, culpa crônica e depressão
  • Rebaixamento do desempenho acadêmico ou profissional
  • Risco de comportamentos sexuais de risco ou uso abusivo de pornografia

Tratamento e caminhos para recuperação

1. Psicoterapia

  • Terapia cognitivo-comportamental (TCC): ajuda a identificar gatilhos, automatismos e desenvolver estratégias de controle
  • Terapia psicodinâmica ou sexual: explora conflitos emocionais ou traumas associados
  • Terapia de casal (se a compulsão afetar o relacionamento)

2. Medicamentos (em casos moderados a graves)

  • ISRSs (ex: sertralina, fluoxetina) podem ser úteis para impulsividade sexual
  • Tratamento de condições associadas (ansiedade, TOC, depressão)

3. Mudança de hábitos e suporte

  • Redução do acesso a pornografia
  • Inserção de novas atividades prazerosas e sociais
  • Grupos de apoio (semelhantes aos 12 passos de dependência química)
  • Aplicativos de bloqueio de conteúdo erótico

Quando procurar ajuda

  • Quando o comportamento causa sofrimento significativo
  • Quando há prejuízo funcional (isolamento, perda de produtividade, disfunção sexual)
  • Quando há sentimento de perda de controle

Conclusão

A masturbação é parte natural da sexualidade humana, mas pode se tornar um problema quando usada como válvula de escape emocional e compromete a qualidade de vida. O vício em masturbação é real, tratável e merece atenção sem preconceito. Procurar ajuda psicológica é um ato de coragem e cuidado consigo mesmo.

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Sobre o Autor:

Médico urologista em Curitiba-PR e São Paulo-SP